Divulgação científica e origens da barreira da linguagem

Daniel Ribeiro Merigoux

Resumo


Como a linguagem, característica distintiva de todo grupo social, se transformou em barreira no caso dos cientistas, a ponto de se comparar a Divulgação a uma tradução? A pergunta, que norteia nosso doutorado em Ciência da Informação, levanta outra: quando e como surgiu a linguagem científica?  Nossa abordagem, sócio-histórica, baseia-se na historiografia e sociologia da ciência. Partimos da Revolução científica, quando os cientistas modernos publicam as primeiras obras consideradas de DC, rumo a sua institucionalização como grupo social distinto. Abandonar o latim pelo romance, como o fez Galileu em seu Diálogo, não nos pareceu conclusivo para se falar em Divulgação como penetração da ciência em variados grupos heterogêneos: a compreensão da obra exigia uma instrução que só era então dispensada em latim e a circulação dos livros científicos era ínfima. A supor que a barreira do latim tenha caído, logo foi substituída pela introdução ou intensificação, na astronomia, da linguagem matemática. Mas a nova astronomia, apesar de subverter a visão do mundo, refutando o conhecimento que legitimava a hegemonia da Igreja na Europa, não introduz mudanças radicais numa concepção de linguagem científica herdada dos escolásticos e, em particular, dos filósofos gregos. A diferenciação linguística do cientista deve portanto ser buscada antes da Revolução astronômica. Nossas pesquisas mostram que origina-se na Grécia Antiga, quando os sábios dividem-se entre filósofos e sofistas, contrapondo dialética e retórica tratando-se de comunicar o conhecimento verdadeiro. Ressalta que o traço constante da linguagem científica é a univocidade, imposta por Aristóteles contra a ambiguidade oracular. Essa revolução da linguagem científica faz os signos verdadeiros girarem em torno do homem e não mais do divino. Além disso, a univocidade inaugura uma nova forma de desenvolvimento do conhecimento diferente da predestinação do mito e que, associado à escrita, torna-se cumulativo e linear, especializando-se na reprodução de capital simbólico.


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