A Ilha dos Hermafroditas: viagem à França especular de Henrique III

Ana Cláudia ROMANO RIBEIRO

Resumo


O objetivo deste trabalho de mestrado é traduzir para o português e analisar A Ilha dos Hermafroditas, obra em geral classificada junto a panfletos e à literatura polêmica, que, segundo Claude-Gilbert Dubois, inaugura o gênero utópico na França e, ao mesmo tempo, contém em si a primeira antiutopia francesa. Artus Thomas, seu provável autor, não segue a estrutura paradigmática do texto de Thomas Morus, apresentando em um mesmo texto três partes distintas: uma antiutopia de teor satírico, um poema panfletário e um discurso apologético, - a utopia propriamente dita. Para Pierre Bayle, trata-se de uma sátira engenhosa da corte de Henrique III, o último Valois, rei que se vestia de modo efeminado e vivia cercado de mignons com quem mantinha relação confidencial. O alcance deste texto, de grande riqueza simbólica, vai, porém, além do tema sexual. Sua principal chave de leitura é a figura do hermafrodita, que, saído da área da teratologia médica, toma valor simbólico e pode ser transposto a diferentes áreas, especialmente à ideologia e à política, designando uma forma de oportunismo moral, econômico, filosófico e político, encoberto por uma ambigüidade de conduta e de discurso. Há neste libelo uma crítica ao estetismo maneirista derivado do naturalismo renascentista, em que o autor procura descobrir os vícios da natureza denunciando, ao mesmo tempo, as dissonâncias causadas pela subordinação dos princípios éticos à lei estética do interesse e do prazer.


Texto completo:

PDF