A arte de recitar o homem. Aspectos da relação entre ensaio e experiência em Montaigne e Musil

Erica Gonçalves de Castro

Resumo


É a partir de Montaigne que o ensaísmo se constitui como forma privilegiada de reflexão e como o veículo mais apto a dar voz às experiências do homem na modernidade. Este artigo explora alguns aspectos da relação entre os Ensaios de Montaigne e a nova dimensão que o ensaísmo assume no contexto do século XX, e que atinge um de seus momentos mais fecundos no romance O Homem sem Qualidades, de Robert Musil. Para tanto, começamos abordando os Ensaios de Montaigne como um momento inaugural do processo que associa escritura e conhecimento de si. A seguir, tecemos algumas considerações sobre a relação entre ensaio e forma literária, que tem em Lukács e Starobinski alguns de seus principais analistas. Por fim, focalizamos o papel do ensaísmo no romance Musil em seu duplo viés: como aspecto formal e como princípio de vida propagado pelo protagonista. O objetivo desta análise é mostrar que, redimensionado à luz de uma obra romanesca, o princípio ensaístico historiciza o papel da escritura como via de acesso a um conhecimento de si e do mundo a partir dos limites da experiência.

Palavras-chave: Ensaio; romance moderno; Robert Musil.

Avec Montaigne, l'essai devient une forme privilégiée de réfléxion, le véhicule le plus apte à exprimer les expériences de l'homme dans la modernité. Cet article exploite quelques aspects du rapport entre les Essais de Montaigne et la nouvelle dimension qui prend l'essaisme dans le XXème siècle - rapport qui a dans le roman de Robert Musil, L'homme sans qualités, l'un de ses moments les plus féconds.  Cette analyse a pour but de démontrer que l'essaisme, incorporé à la forme romanesque, implique l'actualisation du rôle de l'écriture dans la connaissance de soi et du monde à partir des limites de l’expérience.

Mots-clés: Essai; roman moderne; Robert Musil.


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